sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

os pássaros


Os pássaros dizem que hoje vivi pouco.

Lá fora existe um fim de dia

em forma de cálice de prata.


A luz da terra é agora cega,

mostra-me a casa que morreu.


Olho as pedras incertas na parede:

que sabem as aves do que eu sei?


Os pássaros insistem que lá fora

existe o ocidente, e vão embora

num azul que nunca entenderei.


I.C.P.


domingo, 7 de dezembro de 2008

POEMA DE NATAL

Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados.
Para chorar e fazer chorar.
Para enterrar os nossos mortos
—Por isso temos braços longos para os adeuses.
Mãos para colher o que foi dado.
Dedos para cavar a terra.
Assim será nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer.
Uma estrela a se apagar na treva.
Um caminho entre dois túmulos
—Por isso precisamos velar.
Falar baixo, pisar leve, ver a noite dormir em silêncio.
Não há muito o que dizer:
Uma canção sobre um berço.
Um verso, talvez de amor.
Uma prece por quem se vai
—Mas que essa hora não esqueça.
E por ela os nossos corações.
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre.
Para a participação da poesia.
Para ver a face da morte
—De repente nunca mais esperaremos...
Hoje a noite é jovem;
da morte, apenas..
Nascemos, imensamente.

Vinicius de Moraes

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

ausencia

Ausência


Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.

(C. Drummond de Andrade)

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Photobucket
Acordo de noite subitamente,
E o meu relógio ocupa a noite toda.
Não sinto a Natureza lá fora.
O meu quarto é uma coisa escura com paredes vagamente
[brancas.
Lá fora há um sossego como se nada existisse.
Só o relógio prossegue o seu ruído.
E esta pequena cousa de engrenagens que está em cima da
[minha mesa
Abafa toda a existência da terra e do céu...
Quase que me perco a pensar o que isto significa,
Mas estaco, e sinto-me sorrir na noite com os cantos da boca,
Porque a única cousa que o meu relógio simboliza ou significa
Enchendo com a sua pequenez a noite enorme
É a curiosa sensação de encher a noite enorme
Com a sua pequenez...



Alberto Caeiro

domingo, 28 de setembro de 2008

as mãos pressentem...


As mãos pressentem a leveza rubra do lume
repetem gestos semelhantes a corolas de flores
voos de pássaro ferido no marulho da alba
ou ficam assim azuis
queimadas pela secular idade desta luz
encalhada como um barco nos confins do olhar
ergues de novo as cansadas e sábias mãos
tocas o vazio de muitos dias sem desejo e
o amargor húmido das noites e tanta ignorância
tanto ouro sonhado sobre a pele tanta treva
quase nada
Al Berto

domingo, 21 de setembro de 2008

Olhando o mar, sonho sem ter de quê




Olhando o mar, sonho sem ter de quê.
Nada no mar, salvo o ser mar, se vê.
Mas de se nada ver quanto a alma sonha!
De que me servem a verdade e a fé?

Ver claro! Quantos, que fatais erramos,
Em ruas ou em estradas ou sob ramos,
Temos esta certeza e sempre e em tudo
Sonhamos e sonhamos e sonhamos.

As árvores longínquas da floresta
Parecem, por longínquas, 'star em festa.
Quanto acontece porque se não vê!
Mas do que há pouco ou não há o mesmo resta.

Se tive amores? Já não sei se os tive.
Quem ontem fui já hoje em mim não vive.
Bebe, que tudo é líquido e embriaga,
E a vida morre enquanto o ser revive.

Colhes rosas? Que colhes, se hão-de ser
Motivos coloridos de morrer?
Mas colhe rosas. Porque não colhê-las
Se te agrada e tudo é deixar de o haver?

Fernando Pessoa

P.S. Huguinho querido, é para ti... sei que gostavas deste!

a mãe adora-te!

domingo, 14 de setembro de 2008

Para sempre...



Para Sempre


Por que Deus permite


que as mães vão-se embora?


Mãe não tem limite,


é tempo sem hora,


luz que não apaga


quando sopra o vento


e chuva desaba,


veludo escondido


na pele enrugada,


água pura, ar puro, puro pensamento.



Morrer acontece

com o que é breve

e passa sem deixar vestígio.


Mãe,

na sua graça,

é eternidade.

Por que Deus se lembra

- mistério profundo -

de tirá-la um dia?

Fosse eu Rei do Mundo,

baixava uma lei:

Mãe não morre nunca,

mãe ficará sempre junto de seu filho

e ele,

velho embora,

será pequenino

feito grão de milho.




Carlos Drummond de Andrade