domingo, 7 de dezembro de 2008

POEMA DE NATAL

Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados.
Para chorar e fazer chorar.
Para enterrar os nossos mortos
—Por isso temos braços longos para os adeuses.
Mãos para colher o que foi dado.
Dedos para cavar a terra.
Assim será nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer.
Uma estrela a se apagar na treva.
Um caminho entre dois túmulos
—Por isso precisamos velar.
Falar baixo, pisar leve, ver a noite dormir em silêncio.
Não há muito o que dizer:
Uma canção sobre um berço.
Um verso, talvez de amor.
Uma prece por quem se vai
—Mas que essa hora não esqueça.
E por ela os nossos corações.
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre.
Para a participação da poesia.
Para ver a face da morte
—De repente nunca mais esperaremos...
Hoje a noite é jovem;
da morte, apenas..
Nascemos, imensamente.

Vinicius de Moraes